sábado, 14 de novembro de 2009

Duque de Caxias pertence a Poseidon

Estamos falando da cidade que tem o 15º PIB do Brasil, o 2º do Estado do Rio. Duque de Caxias tem, segundo o Censo 2008, 864.392 habitantes - e R$ 21.000,00 de PIB per capta! Essa deveria ser uma cidade modelo. Mas não é. E as enchentes dessa semana nos ajudaram a ver isso de maneira mais contundente.

Duque de Caxias vive o fenômeno da multiplicação de igrejas evangélicas, com crescimento explosivo do número de convertidos. É comum, em qualquer rua ou avenida da cidade, a presença de inúmeros templos, quase sempre lotados. Mais um motivo, poder-se-ia dizer, para imaginar uma cidade que encarnasse os valores do Evangelho. No entanto, sou forçado a questionar o que se alardeia com tanta pretensão: "Duque de Caxias pertence a Jesus!". Pode até ser, num sentido exclusivamente dogmático, mas as recentes enchentes nos mostram um município com a cara de Poseidon, o deus dos mares e das águas.

É justamente na pretensão evangélica que reside minha indignação. Preciso saber quantos/as pastores/as e líderes de igrejas evangélicas ocupam seus púlpitos neste momento para questionar as autoridades públicas quanto ao quadro cruel e desumano, criado não pela chuva, mas pelo abandono e pela ausência do poder público. Preciso saber quantos/as colegas, nesse momento, choram com suas ovelhas e as orientam na luta por mudanças profundas em sua cidade. Preciso saber porque desconfio que a voz da igreja anuncia a Barra da Tijuca como prêmio para os "fiéis a Jesus", e se contenta em consolar os que por ora "são provados em sua fé". Então, amigos/as pastores/as, o que essas imagens exigem de nós, seguidores/as de Jesus?
Preciso desesperadamente saber se amanhã vozes proféticas denunciarão o descaso do poder público ou vozes loucas reclamarão da parada gay. Preciso saber...

Parece óbvio que existe um grande problema em nossa reflexão teológica. Parece óbvio, também, que dizer às pessoas das fotos acima que um "maravilhoso céu as espera" é absolutamente desnecessário, covarde, alienante e, por que não, demoníaco.

Perdoem-me a indignação e dureza das palavras. Repito-as para mim mesmo todos os dias. Penso que Jesus, entre nós, faria um chicote e nos expulsaria da igreja.

No meio disso tudo, não posso deixar de comentar o que é um claro sinal do Deus da Vida para cada um/a de nós.
Essa é uma imagem messiânica. Vejo, nessa criança resgatada da enchente, o Menino Jesus... Ou quem sabe Moisés. É dela que minha Bíblia fala. É isso que meu Deus me fala.

Procuro, na multidão, pedir ao Senhor que me ajude a identificar o Cristo (Mateus 25)... Mas também o Herodes, o faraó...

Para o Natal que se avizinha, já montei meu presépio!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

I Encontro "Igreja & Transformação Social" - Ilha do Governador/RJ

Veja no BLOG do ISER/Assessoria
Veja no BLOG do "Fé e Cidadania" de Niterói

Já era hora de movimentar esse blog. No meio de tantas idas e vindas, estive um tempo "fora do ar". Isso mesmo. É tempo de caminhar sobre a terra e transformar idéias em atos. Essa foi a proposta do I Encontro "Igreja & Transformação Social" da Ilha do Governador, realizado nos dias 3 e 4 de outubro, na Igreja Batista em Jardim Duas Praias, nossa casa.

Ao longo de uma tarde (03) e manhã (04), batistas e católicos discutiram a importância da reflexão política a partir da vivência e da prática da fé cristã. Descobrimos que, querendo ou não, são decisões políticas as que mais diretamente influenciam nossas vidas. É uma exigência da fé cristã que, de mãos dadas, participemos dos destinos de nossa nação, agindo sempre em defesa dos pobres e oprimidos, uma vez que essa foi a opção de Jesus, como nos narram os evangelistas.

No primeiro dia, o professor Tobias Faria, assessor da Rede "Fé e Política" do estado do Rio de Janeiro, caminhou conosco nos mostrando como a Bíblia é clara em defender um projeto de vida para todos e todas, em contraposição ao sistema de morte, dominante em nossa realidade. Refletimos sobre a necessidade de, como igreja, sermos defensores e propagadores desta mensagem de vida em abundância, tão ausente nos rostos ao nosso redor. Como foi bom descobrir que damos 1/3 do nosso trabalho nas mãos de nossos representantes, os mandatários, e por isso precisamos acompanhá-los, fiscalizá-los e exigir que cumpram seu papel na construção de uma sociedade justa, fraterna e humana. Ao fim deste dia, discutimos iniciativas concretas que podem se tornar factíveis em nossa realidade local. Como comunidade batista, foi realmente libertador saber que temos irmãos e irmãs de fé, caminhada e luta na igreja católica.

No domingo, o professor Fábio Py, biblista, trabalhou conosco um texto dos Atos, auxiliando-nos a identificar, no cristianismo nascente, a opção radical por uma vida de igualdade e partilha, sem a qual o movimento cristão teria perecido.

Foi apenas um passo na longa caminhada. Mas demos esse passo juntos, quebrando barreiras, abrindo-nos ao novo, convivendo com as diferenças e, sobretudo, descobrindo um Jesus tremendamente humano e comprometido com a Vida, nossa vida e vida dos que estão ao nosso redor.

É bom poder entrar na roda... Então vem, entre nela com a gente!



terça-feira, 8 de setembro de 2009

Culto do "EU"

por Pe. Alfredo J. Gonçalves * /Adital

No individualismo exacerbado da sociedade moderna ou pós-moderna, o culto ao "eu" ganha uma relevância sem precedentes. Semelhante culto se expressa de variadas formas: a primeira e mais visível é a busca obsessiva do corpo perfeito protagonizada especialmente pelas meninas vinculadas ao mundo da moda, com seus desfiles, passarelas, luzes e glamour. A tirania da beleza lhes impõe um regime de verdadeira tortura, além de difundir uma espécie de remorso nas pessoas "normais". Mas o culto ao "eu" também está presente no assédio impudico às celebridades, ou grandes personalidades. De alguma forma, tanto as câmaras e holofotes da mídia quanto o público em geral, projetam nessas figuras o sucesso que sonham para si mesmos, embora continuem rastejando pelo mundo dos simples mortais. De fato as estrelas, embora ofusquem os planetas, conferem-lhe algum brilho. Mesmo girando em órbitas distintas os astros se atraem na infinitude do universo. Daí o afã dos "paparazzi" pela invasão de privacidade a todo custo.

O hedonismo, entendido como o prazer pelo prazer, é outra marca do culto ao "eu". Se confrontarmos os anos de 1950, 60 e 70, com os dias atuais, podemos ter uma idéia do que isso significa. De fato, em décadas passadas, predominava na cultura geral a preocupação com o "bem estar social". Basta reportarmo-nos a figuras como John Lennon ou The Beatles, a Nelson Mandela, Dom Oscar Romero e Hélder Câmara, às canções da Bossa Nova ou da MPB, à manifestações juvenis dos anos 60 em Paris e México, por exemplo, às ações das Igrejas no processo de libertação latinomericano, aos movimentos sociais, universitários e estudantis, à educação Paulo Freire e Ligas Camponesas, enfim, ao desenvolvimento dos debates em torno do socialismo e suas ações concretas. Em tudo isso, o foco das atenções estava centrado numa perspectiva claramente sócio-política.

Atualmente o foco do"bem estar social" foi substituído pelo foco do "bem estar pessoal". "Estar numa boa" é uma das expressões dessa virada histórica. O verbo ficar ao invés de namorar também não deixa de ser uma metáfora dessa mudança cultural mais abrangente. As relações tendem a ser mais efêmeras, descartáveis, sem responsabilidades duradouras. A própria dança, em lugar de revelar um casal apaixonado, aparece muito mais como um exibicionismo contorcionista de um parceiro frente ao outro. Mas isso não se dá somente entre os jovens e adolescentes, como se costuma insinuar. Na sociedade como um todo, é frequente o isolamento individual diante da multidão de estranhos.

Desde um ponto de vista religioso e católico, uma rápida olhada para os hinos tocados nas missas ou celebrações segue a mesma direção. Em não poucos casos, o "nós" de décadas passadas dá lugar ao "eu": ao invés do "Povo de Deus", eu e Jesus, eu e Deus, e assim por diante. A Teologia da Libertação, as CEBs e as Pastorais Sociais sofrem um processo de encolhimento, ao mesmo tempo que florescem os movimentos religiosos de caráter espiritual e intimista. Também a fé tende a privatizar-se, tornando-se uma opção individual com pouca ou nenhuma repercussão social.

O resultado é que o conceito de transformação social ou política está desacreditado. Mudança virou sinônimo de espetáculo, não de processo lento e laborioso. Funcionam melhor os analgésicos da vida moderna. Não se pensam em projetos de longo prazo, mas em remédios imediatos para problemas imediatos. O importante é responder aos males do "aqui e agora". Daí o sucesso da varinha mágica de Harry Porter, da força de Rambo, da sorte lotérica, das lições de auto-ajuda, dos milagrismos, entre tantos outros paliativos.

Facilmente se esquece que as mudanças, a exemplo da espiga, da flor, da árvore e do edifício, levantam-se do chão. A exemplo das sementes, maturam na terra escura e úmida, antes de se projetarem no céu e no ar livre. Criam raízes antes de verem a luz do sol, crescem para baixo antes de cresceram para cima. O mesmo se dá com os sonhos e utopias. Se não partirem do contexto histórico, com o complexo de seus problemas econômicos, políticos e sociais, jamais poderão elevar-se a um horizonte alternativo. Sem raízes, a árvore é manipulada pelos ventos e os projetos sociais pelas tempestades variantes da política.

* Assessor das Pastorais Sociais.

sábado, 4 de julho de 2009

Multiplicando o rebanho...


Car@s amig@s que lêem este Blog... O que aqui será dito não pretende revolucionar a reflexão sobre o estado de coisas em que vivemos. "Não há nada novo debaixo do céu"...

Contudo, "não posso deixar de falar do que tenho visto e ouvido".

Existem inúmeros MCA's (Master of Church Administration) disponíveis no mercado religioso, e um deles resolveu me convidar para um curso. Não só a mim, mas a todos, no masculino mesmo, que são meus colegas de trabalho. "Todos no masculino mesmo" porque o convite partiu de uma fraternidade de pastores, ligada à denominação a que pertenço, que é capaz de, em pleno presente século, fazer distinção entre homens e mulheres na Igreja.

Pois é. Essa fraternidade envia uma carta aos pastores machos para convidá-los a participar de um retiro, onde outros pastores machos compartilhariam os segredos da multiplicação de seus rebanhos. Exatamente. Nossos colegas pastores estão utilizando tecnologias reprodutivas em suas igrejas (novidade). Assim, nada melhor do que dividir com outros criadores o milagre da multiplicação, garantindo um mercado consumidor de seus "gametas abençoados". Pensem nas vantagens das técnicas reprodutivas: "evita os custos e os riscos da manutenção de touros na propriedade, assim como os gastos periódicos de aquisição de novos reprodutores; permite o uso de material genético de melhor qualidade e até importado; possibilita a realização de acasalamentos direcionados e a escolha do melhor reprodutor para cada fêmea; elimina o risco de transmissão de doenças (...); permite o melhor controle da reprodução e agrega valor ao rebanho (http://www.asbia.org.br/?empresa/noticias_ler,61). Ou seja: tudo o que nós, pastores, precisamos.

Permitam-me reproduzir, com algumas alterações nos nomes dos palestrantes, a carta-convite: "... estarão falando os pastores: Pr. Dr. Peter Drucker, homem que revolucionou a administração do North Seminary; Pr. Jack Welch, que dirije a PIB de algum lugar que vive um crescimento maravilhoso. Somente até maio sua igreja realizou 125 batismos. Hoje a igreja conta com 3.000 membros, sendo que há cerca de 10 anos contava apenas com 300 membros; Pr. Bill Gates, da igreja de Miami, que tem forte e abençoada estrutura...".

Estamos ou não falando de rebanhos?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Reminiscências...

Lembro-me muito de minha infância... Guri que nasceu no Rio e cresceu em Valença, no interior do estado. Lá aprendi a ler, a escrever e, quem sabe, a pensar...

Lembro-me de que, não sei em que série, havia um livro de português que falava em desenvolvimento do senso crítico... Foi no Instituto de Educação Dep. Luiz Pinto. Grande escola. Há textos daquele livro que ainda estão vivos em minha memória... Um deles é essa belíssima poesia:

O operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

(Vinicius de Moraes)


Mas as letras que me vieram a mente na semana passada são de um poema que eu sempre lia quando visitava o posto de saúde na Rua Vito Pentagna. Ficava na porta de um dos consultórios. Esperando para ser atendido, por diversas vezes reparei naquelas letras. Estava escrito em espanhol e a única frase que eu entendia era: "Pero y ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo". Resolvi jogar a frase no Google e descobri:


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais.

Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes e menos lentilhas, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vida pela frente.

Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…

(José Luís Borges)


Tais lembranças me trouxeram um vendaval de emoções... Penso no passado, penso no presente, tento prever o futuro... Não sei o que me reserva a vida. Não quero chegar aos 85 com a sensação de que faria tudo diferente... Entretanto, às vezes tenho a sensação de que cheguei aos 26 exatamente assim... Quer dizer, quase exatamente. Há muito da minha história que não mudaria. Ou mudaria? Se mudasse, o que mudaria? Para o que mudaria?

Mas não posso mudar! Esse é o fato. Tenho que me contentar. Tento apenas ser um operário em construção. Tento apenas aprender a dizer não. Tento apenas dar meus pequenos passos, nesse grande chão!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O nome político do amor

Frei Betto*

Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela, uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da ilha.

Socialismo cubano

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu a União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que "a história acabou"; a esperança - uma virtude teologal para nós, cristãos - findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos - 20 por cento da população mundial que usufrui de seus avanços - sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução Cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava Martí; a felicidade de um povo construído com bases éticas e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse não dos bens finitos, e sim nos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.

*Frei Betto é escritor, autor de vários livros.

(pubicado em "Caros Amigos", ano XII, número 133, abril de 2008)

sábado, 16 de maio de 2009

Os efeitos não são quase nada! Procure pelas causas...

André Valadão, 2008.


Michael W. Smith, 2007.


Soldados americanos no Iraque.


Pentecostalismo autônomo.


Proselitismo on-line.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"O solitário perguntar zomba de mim..."

Quarta-feira. Fim da reunião de oração em nossa Igreja. Na saída, ouço algumas senhoras, entre elas minha mãe, discutindo sobre a hora que teriam de sair de casa para marcar o exame preventivo (ginecológico "Papanicolau"). "Três horas" - disse uma. "Não" - retrucou outra - "Saindo às quatro dá pra marcar". Veja bem: três ou quatro da madrugada! E para marcar para julho ou agosto...

Quinta-feira. Depois de um dia intenso de trabalho, desço no ponto do ônibus às 22h30. Recusando-me à subir o morro onde moro andando, permiti-me o luxo de tomar um táxi. Vendo-me bocejar, o taxista me perguntou se estava cansado. Respondi positivamente já pensando no horário que acordaria no dia seguinte. "Então está como os brasileiros", disse ele. "Exceto os jogadores de futebol", completou indignado, emendando num desabafo. "Sabe, sou bombeiro salva-vidas. Há alguns anos atrás, quando o Zico voltou para o Brasil, eu estava trabalhando na praia de Copacabana. Naquele dia o mar estava muito agitado. Praia cheia. Já tinha realizado diversos salvamentos. De repente a praia se esvazia. Um caminhão do Corpo de Bombeiros é seguido por uma grande multidão que ovaciona alguém. Ouço gritos. "Meu herói". "Meu ídolo". Várias pessoas que eu tinha salvado das águas estavam ali. Mas não gritavam para mim nem para outros bombeiros. Gritavam para o Zico! Larguei o serviço e entrei no primeiro boteco que encontrei...".

Sexta-feira. Pensando ecologicamente, subo para o segundo andar onde trabalho pelas escadas. Lá está a zeladora do prédio, lavando os degraus e cantarolando. Aquela música não saiu de meus ouvidos: "Vou passando pela prova dando glória a Deus. Glória a Deus, glória a Deus ".

Três dias, três experiências diferentes, com realidades muito próximas. Poderiam ser 365 dias. Em todos eles esses quadros se repetem. Por vezes são ainda mais dolorosos.
Como compreendê-los? Como enfrentá-los? "O solitário perguntar zomba de mim..."


QUEM SOU EU - Dietrich Bonhoeffer*


Quem sou eu? Seguidamente me dizem
Que deixo a minha cela
Sereno, alegre e firme
Qual dono que sai do seu castelo.

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
Que falo com os que me guardam
Livre, amável e com clareza
Como se fosse eu a mandar.

Quem sou eu? Também me dizem
Que suporto os dias de infortúnio
Impassível, sorridente e altivo
Como alguém acostumado a vencer.

Sou mesmo o que os outros dizem a meu respeito?
Ou sou apenas o que sei a respeito de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente, como um pássaro na gaiola,
Respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta,
Faminto de cores, de flores, do canto dos pássaros,
Sedento de palavras boas, de proximidade humana,
Tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha,
Irriquieto à espera de grandes coisas,
Em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
Cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar,
Desanimado e pronto para me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?
E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desprezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como exército derrotado,
Que foge desordenado à vista da vitória já obtida?

Quem sou eu? O solitário perguntar zomba de mim.
Quem quer que eu seja, ó Deus, tu me conheces,
Sou teu.


*pastor luterano. Na Alemanha nazista se opôs à Hitler. Inicialmente ofereceu resistência pacífica. Mais tarde, aliou-se a membros do estado-maior das forças armadas alemãs que resistiam ao Führer. Foi preso e executado em 9 de abril de 1945.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Enquanto isso, na Sala de Justiça... Valeu Joaquim!

Discussão entre o Min. Gilmar Dantas (segundo Noblat) e o Min. Joaquim Barbosa...

Imperdível!


http://www.youtube.com/watch?v=sIUdUsPM2WA

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu estava lá, tentando fazer minha parte!

Quinta-feira, 02 de abril de 2009, mais de 1.500 pessoas coloriam a Cinelândia, no centro do Rio, clamando contra a corrupção, a impunidade e a crise que já afeta milhões de brasileiros. Expressamos nosso apoio aos combativos parlamentares presentes, e, sobretudo, ao ilustre e perseguido delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, um exemplo de dedicação e coragem a ser seguido.

Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro uniram militantes do PSOL e pessoas comuns, num dos locais mais movimentados da cidade, palco de inúmeras manifestações populares ao longo da história do Brasil.

Eu, como cristão comprometido com a construção de uma sociedade mais justa, e vendo a política como um meio efetivo de vivência da minha fé, juntei-me ao povo que gritava:"Vai Delegado do Povo, prende o banqueiro de novo", numa alusão ao trabalho do Dr. Protógenes na Operação Satiagraha, que culminou no indiciamento e prisão do poderoso Daniel Dantas, logo libertado por dois habeas corpus do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes.

Naquela noite, tive a alegria de, pela primeira vez, ver pessoalmente alguém que para mim significa integridade e retidão desde que liderou a luta contra o falecido Antônio Carlos Magalhães, no episódio da violação do Painel do Senado - Heloísa Helena.

É uma pena que haja tanta diferença entre o número de pessoas que se reúne nas ruas para protestar contra o que tem sido feito e as que pagam para ir a shows ou para votar no Big Brother. Sinceramente, falta-nos consciência de que somos responsáveis por esse estado de coisas.

E é nisso que ressalto o poder que a igreja pode ter: conscientizar seus fiéis da importância da participação de todos na construção de uma sociedade mais justa. Todos, sobretudo os cristãos. Onde eles estavam no dia 2 de abril? Quantos se fazem presentes em eventos estúpidos - marcha para Jesus, shows-gospel - e ignoram manifestações que podem beneficiar a maioria da população.


ACORDA IGREJA! Jesus não se calou! Bonhoeffer não se calou! Luther King não se calou! Nenhum desses se limitou a orar! Nenhum desses se enclausurou num templo para praticar sua fé! E você, o que fará?

quarta-feira, 25 de março de 2009

"Por causa da opressão dos pobres, e do gemido dos necessitados, levantar-me-ei agora, diz o Senhor!" - Sl. 12.5


Uma das grandes vantagens daqueles que engendram a corrupção é vender a imagem de que ela é invencível e devastadora. Agimos em nossa sociedade como se tudo "tivesse que ser" do jeito que é, como se o que vivemos fosse deus, i.e., imutável.

Vendendo a imagem de que "as coisas são assim mesmo", admitimos que o valor da religião é de tão somente consolar as pessoas.

Bom, fico pensando se Deus resolvesse apenas consolar Israel no Egito. O que diria Ele? "Filhos meus, aquietai-vos. Os sofrimentos desse tempo não podem ser comparados com a glória vindoura. Submetei-vos às autoridades. Orem para que todos se convertam". Talvez essas fossem boas palavras. Boas, mas não divinas.

Deus não suportou ver o opróbrio daqueles/as a quem amava. Claramente percebemos Javé dizer que "ouviu o sofrimento do povo" e, agindo, libertou-os da opressão faraônica, estabelecendo um paradigma de sua ação: Javé é o Deus dos oprimidos. Todo o Antigo Testamento é construído sob a releitura do êxodo. Quantas são as vezes em que ouvimos: "Deus vos tirou do Egito..."? Assim, a libertação de Israel se constitui numa chave de leitura para o Antigo, ou, Primeiro Testamento.

No Novo, ou Segundo Testamento, uma outra imagem da opressão é a característica marcante dos fatos: a Cruz. Do início ao fim a cruz tem papel central. E o que ela é, senão símbolo da presença opressora dos romanos na Palestina? Mas Jesus não se importou com seu destino quando nos legou sua revolução de valores. Um choque diante da sociedade de seu tempo, encarando todas as estruturas: a tirania de Roma e o jugo de Jerusalém, com seu culto elitista, sustentáculo de toda a estrutura de dominação e exclusão da sociedade judaica.

Portanto, com Jesus não aprendemos a ser acomodados. Os ensinos de Jesus não podem ser usados como ópio. Pelo contrário, o compromisso com Cristo nos traz um desejo profundo de transformação. E transformação radical. Dê uma olhada no Cântico de Maria, Lucas 1.46-56, e perceba seu conteúdo altamente revolucionário, tratando a vinda do Messias como um poder capaz de subverter as estruturas sociais.

Por isso, pensar em Jesus hoje é assumir o compromisso de lutar por uma sociedade mais justa, contra todas as formas de opressão e contra qualquer tipo de ameaça à vida. E isso, em nosso país, exige de nós uma postura de luta contra a corrupção, a desigualdade social, a concentração de renda, o latifúndio, a repressão estatal e o uso da máquina pública contra o povo.

Certamente você ouviu falar do delegado Protógenes. Foi ele quem efetuou a prisão de Paulo Maluf, do contrabandista Law King Chong, de Daniel Dantas, de Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Só por isso merecia uma medalha. Mas o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, que hoje foi chamado de "leviano" e "veículo de maledicências" pela Associação dos Juízes Federais do Brasil - http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/03/25/a-integra-da-nota-da-ajufe-sobre-as-declaracoes-de-gilmar-mendes-754987250.asp - , justamente por sua defesa a Daniel Dantas, deseja de todas as formas ver Protógenes Queiroz na cadeia.

E nós, cristãs e cristãos desse país, o que faremos?

Eu tenho uma sugestão: lerei o Salmo 12 todo dia, até dia 2/04, na Cinelândia, poder expressar minha indignação.

Deus se levanta... E você?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Jesus, Mistério Divino, Reconciliando a Realidade de Deus e a Realidade dos Homens

“Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo...” II Cor. 5:19

Um professor meu, seguindo Paul Tillich, costumava afirmar que a palavra “Deus” é um termo que nomeia a fonte misteriosa daquilo que tem significado último.” Dizer “Deus” é expressar numa palavra aquilo que em última instância nos satisfaz, aquilo que em última instância nos realiza, a fonte de poder que torna possível a justiça e o amor, que dá esperança e significado às nossas existências. Nas palavras do próprio Paul Tillich, Deus é o nome da infinita e inesgotável fundação do próprio ser.

Interessante notarmos que grupos como os AA, ou os Narcóticos Anônimos (NA) se referem a Deus simplesmente como a um poder superior. Estimulam os seus membros a invocar um poder maior, que pode ajudá-los a se libertarem de outros poderes que os mantêm dependentes e lhes provocam sofrimento e opressão. Essa, na verdade, é a única maneira legítima de nos referirmos a Deus. Deus está para além da nossa razão e da nossa compreensão. Toda tentativa de compreender Deus em sua totalidade constitui idolatria, porque reduz Aquele que é infinito aos limites da razão finita, das nossas confissões doutrinárias finitas.

É interessante notarmos que, na Antiguidade, a palavra “Deus” sugeria mistério e levava as pessoas à contemplação e à reverência. Os judeus, mesmo tendo um nome para Deus, não o pronunciavam, por reverência Àquele que é maior do que qualquer palavra humana. No AT encontramos várias vezes a expressão de maravilha e reverência diante do Divino: “Mas fiz calar a minha alma, tal criança desmamada para com sua mãe, tal é minha alma para comigo.” (Salmos 131:2) “O Senhor está no seu santo templo. Cale-se diante dEle, toda a terra.” (Hab. 2:20) “Cale-se diante do Senhor toda a carne.” (Zac. 2:13). No Apocalipse, por ocasião da abertura do sétimo selo, há espanto e maravilha de tal forma que se faz silêncio por meia hora no céu.” (Ap. 8:2)

Era com essa noção da divindade que se construíram os templos no passado. Os templos eram locais de contemplação do divino. Aquilo que não se conseguia expressar por meio de palavras tentava-se expressar através da arte, de tal forma que quem adentrasse aquele lugar fosse levado a contemplar aquilo que transcende toda razão humana e toda palavra. Os Quackers levaram isso tão a sério que instituíram o silêncio, e não a palavra, como parte central do culto. Nos dias atuais, somos impulsionados a falar em todo o tempo. Nossa adoração hoje se reduziu a palavras, às vezes frases repetitivas e vazias, verdadeiros mantras evangélicos que repetimos em nossos cultos. Perdemos o senso de maravilha, de contemplação do divino.

Contemplar o divino nos leva a reconhecer a nossa humanidade, a enxergar os nossos limites, e a nos ver dentro desta dimensão maior, desta dimensão sagrada, da vida em si, que nos contém e dentro da qual nos movemos. Pecado é o distanciamento desta realidade, que nos isola de Deus, e conseqüentemente uns dos outros. A perda dessa dimensão do divino nos coloca em grande perigo de cairmos na idolatria. Cada vez que abrimos a boca e falamos “Deus”, corremos grande perigo de pecarmos por idolatria. Isso porque tendemos a reduzir Deus a fórmulas prontas, que, conscientemente ou não, carregamos dentro de nós, definindo e limitando Deus, pretendendo conhecer a vontade de Deus, os desígnios de Deus, a salvação de Deus etc. O interessante é que Deus, mesmo ao se mover em busca do ser humano, não o fez falando, mas o fez através de um outro mistério. “E o verbo se fez carne, e habitou em nós, cheio de Graça, e vimos a sua glória.” (João 1) Através do mistério do Deus encarnado, a realidade divina e a realidade humana se reconciliam.

Pr. Raimundo César
Igreja Batista da Esperança - Salvador - BA