
Contudo, depois de 2.000 anos e várias peregrinações, me parece que o cristianismo brasileiro, pelo menos o mais numeroso e midiático, fruto da herança puritano-pietista, voltou a ser um complexo sistema de leis e tradições que nos levam a uma relação intimista com Deus. Essa relação intimista se manifesta num culto verticalizado e na observância de regras do tipo "fazer-não-fazer-farisaico". O que vemos não é, de fato, uma religião que consiga "alvoroçar o mundo", como disseram os tessalonicenses nos Atos dos Apóstolos... Estamos mais preocupados em oferecer às pessoas uma comunidade na qual se sintam acolhidos, amados e respeitados, sem, contudo, lutar contra a causa objetiva do sentimento de abandono, desamor, desrespeito e "desumanização". Minha impressão é de que perdemos o foco e necessitamos rever profundamente nosso paradigma cristão.
Para concretizar a compreensão de Cristo dos mandamentos em nossas vidas, creio que precisamos nos envolver numa luta para compreender o caminho que nos troxe até aqui, e, como Cristo, encarnarmos. Tornar-se carne deve ser o objetivo de cada um de nós. Carne que ouça os clamores do mundo. Carne que seja capaz de ouvir o que Deus ouviu, como nos relata o Êxodo: "Eu ouvi o clamor do meu povo que sofre..." Não sejamos mais perpetuadores da ordem vigente, mas, como Cristo e os primeiros cristãos, revolucionários e possibilitadores de um novo tempo.
Que Deus nos ajude!