segunda-feira, 15 de junho de 2009

Reminiscências...

Lembro-me muito de minha infância... Guri que nasceu no Rio e cresceu em Valença, no interior do estado. Lá aprendi a ler, a escrever e, quem sabe, a pensar...

Lembro-me de que, não sei em que série, havia um livro de português que falava em desenvolvimento do senso crítico... Foi no Instituto de Educação Dep. Luiz Pinto. Grande escola. Há textos daquele livro que ainda estão vivos em minha memória... Um deles é essa belíssima poesia:

O operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

(Vinicius de Moraes)


Mas as letras que me vieram a mente na semana passada são de um poema que eu sempre lia quando visitava o posto de saúde na Rua Vito Pentagna. Ficava na porta de um dos consultórios. Esperando para ser atendido, por diversas vezes reparei naquelas letras. Estava escrito em espanhol e a única frase que eu entendia era: "Pero y ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo". Resolvi jogar a frase no Google e descobri:


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais.

Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes e menos lentilhas, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vida pela frente.

Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…

(José Luís Borges)


Tais lembranças me trouxeram um vendaval de emoções... Penso no passado, penso no presente, tento prever o futuro... Não sei o que me reserva a vida. Não quero chegar aos 85 com a sensação de que faria tudo diferente... Entretanto, às vezes tenho a sensação de que cheguei aos 26 exatamente assim... Quer dizer, quase exatamente. Há muito da minha história que não mudaria. Ou mudaria? Se mudasse, o que mudaria? Para o que mudaria?

Mas não posso mudar! Esse é o fato. Tenho que me contentar. Tento apenas ser um operário em construção. Tento apenas aprender a dizer não. Tento apenas dar meus pequenos passos, nesse grande chão!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O nome político do amor

Frei Betto*

Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela, uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da ilha.

Socialismo cubano

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu a União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que "a história acabou"; a esperança - uma virtude teologal para nós, cristãos - findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos - 20 por cento da população mundial que usufrui de seus avanços - sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução Cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava Martí; a felicidade de um povo construído com bases éticas e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse não dos bens finitos, e sim nos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.

*Frei Betto é escritor, autor de vários livros.

(pubicado em "Caros Amigos", ano XII, número 133, abril de 2008)

sábado, 16 de maio de 2009

Os efeitos não são quase nada! Procure pelas causas...

André Valadão, 2008.


Michael W. Smith, 2007.


Soldados americanos no Iraque.


Pentecostalismo autônomo.


Proselitismo on-line.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"O solitário perguntar zomba de mim..."

Quarta-feira. Fim da reunião de oração em nossa Igreja. Na saída, ouço algumas senhoras, entre elas minha mãe, discutindo sobre a hora que teriam de sair de casa para marcar o exame preventivo (ginecológico "Papanicolau"). "Três horas" - disse uma. "Não" - retrucou outra - "Saindo às quatro dá pra marcar". Veja bem: três ou quatro da madrugada! E para marcar para julho ou agosto...

Quinta-feira. Depois de um dia intenso de trabalho, desço no ponto do ônibus às 22h30. Recusando-me à subir o morro onde moro andando, permiti-me o luxo de tomar um táxi. Vendo-me bocejar, o taxista me perguntou se estava cansado. Respondi positivamente já pensando no horário que acordaria no dia seguinte. "Então está como os brasileiros", disse ele. "Exceto os jogadores de futebol", completou indignado, emendando num desabafo. "Sabe, sou bombeiro salva-vidas. Há alguns anos atrás, quando o Zico voltou para o Brasil, eu estava trabalhando na praia de Copacabana. Naquele dia o mar estava muito agitado. Praia cheia. Já tinha realizado diversos salvamentos. De repente a praia se esvazia. Um caminhão do Corpo de Bombeiros é seguido por uma grande multidão que ovaciona alguém. Ouço gritos. "Meu herói". "Meu ídolo". Várias pessoas que eu tinha salvado das águas estavam ali. Mas não gritavam para mim nem para outros bombeiros. Gritavam para o Zico! Larguei o serviço e entrei no primeiro boteco que encontrei...".

Sexta-feira. Pensando ecologicamente, subo para o segundo andar onde trabalho pelas escadas. Lá está a zeladora do prédio, lavando os degraus e cantarolando. Aquela música não saiu de meus ouvidos: "Vou passando pela prova dando glória a Deus. Glória a Deus, glória a Deus ".

Três dias, três experiências diferentes, com realidades muito próximas. Poderiam ser 365 dias. Em todos eles esses quadros se repetem. Por vezes são ainda mais dolorosos.
Como compreendê-los? Como enfrentá-los? "O solitário perguntar zomba de mim..."


QUEM SOU EU - Dietrich Bonhoeffer*


Quem sou eu? Seguidamente me dizem
Que deixo a minha cela
Sereno, alegre e firme
Qual dono que sai do seu castelo.

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
Que falo com os que me guardam
Livre, amável e com clareza
Como se fosse eu a mandar.

Quem sou eu? Também me dizem
Que suporto os dias de infortúnio
Impassível, sorridente e altivo
Como alguém acostumado a vencer.

Sou mesmo o que os outros dizem a meu respeito?
Ou sou apenas o que sei a respeito de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente, como um pássaro na gaiola,
Respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta,
Faminto de cores, de flores, do canto dos pássaros,
Sedento de palavras boas, de proximidade humana,
Tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha,
Irriquieto à espera de grandes coisas,
Em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
Cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar,
Desanimado e pronto para me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?
E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desprezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como exército derrotado,
Que foge desordenado à vista da vitória já obtida?

Quem sou eu? O solitário perguntar zomba de mim.
Quem quer que eu seja, ó Deus, tu me conheces,
Sou teu.


*pastor luterano. Na Alemanha nazista se opôs à Hitler. Inicialmente ofereceu resistência pacífica. Mais tarde, aliou-se a membros do estado-maior das forças armadas alemãs que resistiam ao Führer. Foi preso e executado em 9 de abril de 1945.