Dois anos se passaram desde o início da peregrinação.
Em 28 de outubro de 2007, cerca de 45 famílias, de 120 que saíram do Egito, entravam na Terra Prometida. Um antigo prédio do INSS no Centro do Rio de Janeiro, há muito fechado, se transformou na “terra que emana leite e mel”, para mulheres, homens e crianças.
Organizados no Movimento Nacional de Luta por Moradia, tendo como Moisés a guerreira Maria de Lourdes Lopes (Lurdinha), depois de peregrinar no antigo Cine Vitória, e em muitos outros lugares, conseguiram, por fim, ver Faraó cair e entraram “a pés enxutos” na herança de Javé, constituindo-se hoje em mais um grandioso exemplo da força da mobilização popular.
A Ocupação foi batizada de Manuel Congo, em homenagem ao líder da maior rebelião de escravos no Vale do Paraíba do Sul, entendendo que preservar a memória é indispensável na caminhada (Deut. 6). A ocupação completou dois anos cantada na doce voz das crianças, que juntas num lindo coro ensinavam os presentes que “é preciso coragem”.
Um ano de cozinha comum, uma máquina lavar com um tanque por andar até o dia de hoje, banheiros comuns, escalas de limpeza, assembléias quase semanais... Quanto foi preciso aprender... Quanto se tem aprendido... Quanto podem ensinar ao mundo? Sim, outras relações são possíveis! Que transformação é essa, feita sem a força de armas, que une famílias num ideal sublime, que num tempo de notícias ruins, encarna a Boa-Nova?
A Ocupação Manuel Congo mexe com meus sonhos. Ela, de fato, aquece meu coração. Quem ouve sua história, quem conhece seu povo e celebra suas vitórias, vê, sente e experimenta a presença do Deus da Vida.
Estamos falando da cidade que tem o 15º PIB do Brasil, o 2º do Estado do Rio. Duque de Caxias tem, segundo o Censo 2008, 864.392 habitantes - e R$ 21.000,00 de PIB per capta! Essa deveria ser uma cidade modelo. Mas não é. E as enchentes dessa semana nos ajudaram a ver isso de maneira mais contundente.
Duque de Caxias vive o fenômeno da multiplicação de igrejas evangélicas, com crescimento explosivo do número de convertidos. É comum, em qualquer rua ou avenida da cidade, a presença de inúmeros templos, quase sempre lotados. Mais um motivo, poder-se-ia dizer, para imaginar uma cidade que encarnasse os valores do Evangelho. No entanto, sou forçado a questionar o que se alardeia com tanta pretensão: "Duque de Caxias pertence a Jesus!". Pode até ser, num sentido exclusivamente dogmático, mas as recentes enchentes nos mostram um município com a cara de Poseidon, o deus dos mares e das águas.
É justamente na pretensão evangélica que reside minha indignação. Preciso saber quantos/as pastores/as e líderes de igrejas evangélicas ocupam seus púlpitos neste momento para questionar as autoridades públicas quanto ao quadro cruel e desumano, criado não pela chuva, mas pelo abandono e pela ausência do poder público. Preciso saber quantos/as colegas, nesse momento, choram com suas ovelhas e as orientam na luta por mudanças profundas em sua cidade. Preciso saber porque desconfio que a voz da igreja anuncia a Barra da Tijuca como prêmio para os "fiéis a Jesus", e se contenta em consolar os que por ora "são provados em sua fé". Então, amigos/as pastores/as, o que essas imagens exigem de nós, seguidores/as de Jesus?
Preciso desesperadamente saber se amanhã vozes proféticas denunciarão o descaso do poder público ou vozes loucas reclamarão da parada gay. Preciso saber...
Parece óbvio que existe um grande problema em nossa reflexão teológica. Parece óbvio, também, que dizer às pessoas das fotos acima que um "maravilhoso céu as espera" é absolutamente desnecessário, covarde, alienante e, por que não, demoníaco.
Perdoem-me a indignação e dureza das palavras. Repito-as para mim mesmo todos os dias. Penso que Jesus, entre nós, faria um chicote e nos expulsaria da igreja.
No meio disso tudo, não posso deixar de comentar o que é um claro sinal do Deus da Vida para cada um/a de nós.
Essa é uma imagem messiânica. Vejo, nessa criança resgatada da enchente, o Menino Jesus... Ou quem sabe Moisés. É dela que minha Bíblia fala. É isso que meu Deus me fala.
Procuro, na multidão, pedir ao Senhor que me ajude a identificar o Cristo (Mateus 25)... Mas também o Herodes, o faraó...
Para o Natal que se avizinha, já montei meu presépio!
Já era hora de movimentar esse blog. No meio de tantas idas e vindas, estive um tempo "fora do ar". Isso mesmo. É tempo de caminhar sobre a terra e transformar idéias em atos. Essa foi a proposta do I Encontro "Igreja & Transformação Social" da Ilha do Governador, realizado nos dias 3 e 4 de outubro, na Igreja Batista em Jardim Duas Praias, nossa casa.
Ao longo de uma tarde (03) e manhã (04), batistas e católicos discutiram a importância da reflexão política a partir da vivência e da prática da fé cristã. Descobrimos que, querendo ou não, são decisões políticas as que mais diretamente influenciam nossas vidas. É uma exigência da fé cristã que, de mãos dadas, participemos dos destinos de nossa nação, agindo sempre em defesa dos pobres e oprimidos, uma vez que essa foi a opção de Jesus, como nos narram os evangelistas.
No primeiro dia, o professor Tobias Faria, assessor da Rede "Fé e Política" do estado do Rio de Janeiro, caminhou conosco nos mostrando como a Bíblia é clara em defender um projeto de vida para todos e todas, em contraposição ao sistema de morte, dominante em nossa realidade. Refletimos sobre a necessidade de, como igreja, sermos defensores e propagadores desta mensagem de vida em abundância, tão ausente nos rostos ao nosso redor. Como foi bom descobrir que damos 1/3 do nosso trabalho nas mãos de nossos representantes, os mandatários, e por isso precisamos acompanhá-los, fiscalizá-los e exigir que cumpram seu papel na construção de uma sociedade justa, fraterna e humana. Ao fim deste dia, discutimos iniciativas concretas que podem se tornar factíveis em nossa realidade local. Como comunidade batista, foi realmente libertador saber que temos irmãos e irmãs de fé, caminhada e luta na igreja católica.
No domingo, o professor Fábio Py, biblista, trabalhou conosco um texto dos Atos, auxiliando-nos a identificar, no cristianismo nascente, a opção radical por uma vida de igualdade e partilha, sem a qual o movimento cristão teria perecido.
Foi apenas um passo na longa caminhada. Mas demos esse passo juntos, quebrando barreiras, abrindo-nos ao novo, convivendo com as diferenças e, sobretudo, descobrindo um Jesus tremendamente humano e comprometido com a Vida, nossa vida e vida dos que estão ao nosso redor.
É bom poder entrar na roda... Então vem, entre nela com a gente!
No individualismo exacerbado da sociedade moderna ou pós-moderna, o culto ao "eu" ganha uma relevância sem precedentes. Semelhante culto se expressa de variadas formas: a primeira e mais visível é a busca obsessiva do corpo perfeito protagonizada especialmente pelas meninas vinculadas ao mundo da moda, com seus desfiles, passarelas, luzes e glamour. A tirania da beleza lhes impõe um regime de verdadeira tortura, além de difundir uma espécie de remorso nas pessoas "normais". Mas o culto ao "eu" também está presente no assédio impudico às celebridades, ou grandes personalidades. De alguma forma, tanto as câmaras e holofotes da mídia quanto o público em geral, projetam nessas figuras o sucesso que sonham para si mesmos, embora continuem rastejando pelo mundo dos simples mortais. De fato as estrelas, embora ofusquem os planetas, conferem-lhe algum brilho. Mesmo girando em órbitas distintas os astros se atraem na infinitude do universo. Daí o afã dos "paparazzi" pela invasão de privacidade a todo custo.
O hedonismo, entendido como o prazer pelo prazer, é outra marca do culto ao "eu". Se confrontarmos os anos de 1950, 60 e 70, com os dias atuais, podemos ter uma idéia do que isso significa. De fato, em décadas passadas, predominava na cultura geral a preocupação com o "bem estar social". Basta reportarmo-nos a figuras como John Lennon ou The Beatles, a Nelson Mandela, Dom Oscar Romero e Hélder Câmara, às canções da Bossa Nova ou da MPB, à manifestações juvenis dos anos 60 em Paris e México, por exemplo, às ações das Igrejas no processo de libertação latinomericano, aos movimentos sociais, universitários e estudantis, à educação Paulo Freire e Ligas Camponesas, enfim, ao desenvolvimento dos debates em torno do socialismo e suas ações concretas. Em tudo isso, o foco das atenções estava centrado numa perspectiva claramente sócio-política.
Atualmente o foco do"bem estar social" foi substituído pelo foco do "bem estar pessoal". "Estar numa boa" é uma das expressões dessa virada histórica. O verbo ficar ao invés de namorar também não deixa de ser uma metáfora dessa mudança cultural mais abrangente. As relações tendem a ser mais efêmeras, descartáveis, sem responsabilidades duradouras. A própria dança, em lugar de revelar um casal apaixonado, aparece muito mais como um exibicionismo contorcionista de um parceiro frente ao outro. Mas isso não se dá somente entre os jovens e adolescentes, como se costuma insinuar. Na sociedade como um todo, é frequente o isolamento individual diante da multidão de estranhos.
Desde um ponto de vista religioso e católico, uma rápida olhada para os hinos tocados nas missas ou celebrações segue a mesma direção. Em não poucos casos, o "nós" de décadas passadas dá lugar ao "eu": ao invés do "Povo de Deus", eu e Jesus, eu e Deus, e assim por diante. A Teologia da Libertação, as CEBs e as Pastorais Sociais sofrem um processo de encolhimento, ao mesmo tempo que florescem os movimentos religiosos de caráter espiritual e intimista. Também a fé tende a privatizar-se, tornando-se uma opção individual com pouca ou nenhuma repercussão social.
O resultado é que o conceito de transformação social ou política está desacreditado. Mudança virou sinônimo de espetáculo, não de processo lento e laborioso. Funcionam melhor os analgésicos da vida moderna. Não se pensam em projetos de longo prazo, mas em remédios imediatos para problemas imediatos. O importante é responder aos males do "aqui e agora". Daí o sucesso da varinha mágica de Harry Porter, da força de Rambo, da sorte lotérica, das lições de auto-ajuda, dos milagrismos, entre tantos outros paliativos.
Facilmente se esquece que as mudanças, a exemplo da espiga, da flor, da árvore e do edifício, levantam-se do chão. A exemplo das sementes, maturam na terra escura e úmida, antes de se projetarem no céu e no ar livre. Criam raízes antes de verem a luz do sol, crescem para baixo antes de cresceram para cima. O mesmo se dá com os sonhos e utopias. Se não partirem do contexto histórico, com o complexo de seus problemas econômicos, políticos e sociais, jamais poderão elevar-se a um horizonte alternativo. Sem raízes, a árvore é manipulada pelos ventos e os projetos sociais pelas tempestades variantes da política.
Que chão? Segundo o IPEA, 10% da população mais rica do Brasil detêm 75,4% de todas as riquezas do país. O que o Evangelho que pregamos pensa a respeito disso?