sábado, 5 de fevereiro de 2011

Conexão EUA, Texas, Fort Worth e Batistas do Brasil. Como controlar mentes em nome de Deus.

Amig@s,

Reproduzo artigo de Robert Kennedy Jr, disponível na página do Luiz Carlos Azenha.

Pense na cidade de Dallas, pense no Texas... Na cidade de Fort Worth, vizinha de Dallas, mais precisamente no Southwestern Baptist Theological Seminary, estudaram os mais "ilustres" e "respeitados" líderes da Convenção Batista Brasileira. Lá beberam "Destino Manifesto" e arrotaram "Fundamentalismo". Lá, nos mesmos anos dos fatos narrados no texto abaixo, aprenderam a controlar as "ovelhas rebeldes tupiniquins".

Como criar uma Igreja alheia à sociedade, fundamentalista, direitista e incapaz de pensar: mande os líderes para o Texas. Eles mandaram...

[Anúncio de página inteira publicado no Dallas Morning News no dia do assassinato de JFK, em que ele é acusado de ser comunista]

Nas ondas do ódio radioativo

Após a morte de JFK, vozes do extremismo de direita se afastaram um pouco do rádio e TV. Agora voltaram, diz sobrinho de Kennedy

por Robert F. Kennedy Jr., traduzido por Terezinha Martino, no Estadão

No dia 22 de novembro de 1963, minha mãe foi me buscar na Sidwell Friends School, em Washington. Quando seguíamos para casa, em Hickory Hill, norte da Virgínia, observei que todas as bandeiras da cidade estavam a meio pau. Minha mãe disse que um homem malvado tinha atirado no tio Jack e ele tinha ido para o céu. Um amigo do meu pai, Dean Markhan, ex-companheiro do time de futebol em que ele jogava e promotor da divisão de combate ao tráfico, foi buscar meu irmãozinho David na escola Our Lady of Victory. “Por que eles mataram tio Jack?”, David perguntou a ele. Dean, ex-fuzileiro naval, veterano de combates, conhecido como um dos mais robustos atacantes do Esquadrão GI Bill — o mais forte time de futebol [americano] da história da Universidade de Harvard –, não era tão forte para enfrentar aquela pergunta. E chorou silenciosamente durante todo o caminho percorrido.

Quando cheguei em casa meu pai estava no jardim com Brumus, nosso terra-nova, e Rusty, um setter irlandês. Corremos em sua direção e o abraçamos. Todos choravam. Ele nos disse: “John teve a vida mais maravilhosa possível e jamais teve um dia triste”.

Nem Glenn Beck, Sean Hannity ou Michael Savage, nem os odiosos mercadores da Fox News e dos programas de rádio podem dizer que inventaram seu estilo.

[PS do Viomundo: O autor se refere a jornalistas-militantes da extrema-direita]

A virulência tóxica da direita dominava de tal forma as ondas de rádio desde a era McCarthy até 1963 que o presidente John Jack Kennedy, naquele ano, lançou uma campanha para implementar a Fairness Doctrine (Doutrina da Imparcialidade), que exigia exatidão e equilíbrio no rádio e na TV. Estudantes, grupos religiosos e de cidadãos registraram mais de 500 queixas na Comissão Federal de Comunicações contra extremistas de direita e apresentadores que disseminavam o ódio.

Os programas transmitidos em Dallas eram radioativos: pregadores, líderes políticos e empresários locais cuspiam a virulência extremista, inflamando as paixões de legiões de fanáticos desequilibrados. Havia alguma coisa naquela cidade — cólera ou loucura — que, conscientemente ou não, parecia preparar o terreno para o assassinato de Jack. A Voice of America, meia hora após o assassinato do presidente, descreveu Dallas como o “centro da extrema direita”. Texas era um tal caldeirão de corrupção da direita que o historiador William Manchester a retratou como a cidade que lembrava os dias finais da República de Weimar. “Coisas insanas ocorriam”, reportou Manchester. “Enormes cartazes exigiam o ‘impeachment’ de Earl Warren (presidente da Suprema Corte, responsável pelo fim da segregação nas escolas; depois presidiu a comissão Warren, que investigou o assassinato de Kennedy)”.

Lojas de judeus eram pichadas com suásticas. Jovens donas de casa se sacudiam em público ao canto “Stevenson’s going to die — his heart will stop, stop, stop and he will burn, burn, burn”(Stevenson vai morrer — e seu coração vai parar, parar, parar e ele vai queimar, queimar, queimar).

Manchester continua: “Dallas tornou-se a meca dos festivais de cura dos evangélicos da National Independence Convention, das Cruzadas Cristãs, dos Milicianos, da Sociedade John Birch e das Sociedades Patrick Henry e a sede do explorador de petróleo, de direita, H. L. Hunt e suas atividades duvidosas. O prefeito da cidade, o direitista Earl Carrol, era conhecido como ‘prefeito socialista de Dallas’ por ter mantido sua filiação no Partido Democrata”.

[Nota do Viomundo: O autor se refere, acima, a grupos da extrema-direita de então, antecessores do Tea Party]

O discurso de tio Jack em Dallas deveria ser um ataque violento contra a direita. Ele encontrou as ruas abarrotadas de democratas seus partidários, mas entre eles eram vistos os ornamentos familiares do ódio contra o presidente: bandeiras confederadas, centenas de cartazes exibindo uma foto de Jack com a inscrição “Procurado por traição”. Um homem portava uma faixa que dizia: Você um traidor (sic)”. Outras faixas o acusavam de ser comunista. Quando os alto-falantes da escola anunciaram o assassinato de Jack, alunos do quarto anos aplaudiram. Um ouvinte de rádio ligou para dizer que “qualquer branco que fez o que fez pelos negros deve ser morto a tiros”.

Quando meus irmãos e eu fomos à Casa Branca para consolar meus primos John e Caroline, um grupo desfilava diante da residência exibindo um cartaz que dizia “Deus puniu JFK”.

Jack tinha recebido uma infinidade de advertências para não visitar a cidade texana. De fato, um pressentimento tomava conta da nossa família quando ele e a tia Jackie se preparavam para a viagem. Jack fez uma visita não programa a Cape Cod para se despedir do meu avô doente. Na noite anterior à viagem, minha mãe sentiu que ele estava ausente e taciturno no jantar para os juízes da Suprema Corte.

A morte de Jack forçou um autoexame nacional. Em 1964, os americanos repudiaram as forças do ódio e da violência da direita com histórica e esmagadora vitória na eleição presidencial disputada por Lindon Johnson e Barry Goldwater. Por um tempo os promotores do extremismo de direita se afastaram do pódio público. Agora retornaram, pensando em vingança, ao rádio e à TV e a importantes posições no cenário político.

Gabrielle Giffords continua num quarto de hospital lutando pela vida. Uma garota de 9 anos e outras cinco pessoas estão mortas. Oremos por elas e pelo nosso país e esperemos que essa tragédia leve a um novo exame de consciência.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Que Igreja é essa?


Tomo a pena na mão, depois de longo inverno, para tentar refletir um pouco acerca de um fenômeno crescente, intrigante e revelador: a influência da "moral evangélica" no processo eleitoral e, por que não, na sociedade brasileira.

O que durante muito tempo foi apenas um gueto, agora é o fiel da balança. O grande arraial evangélico, de tantas cores e tons, revela sua essência tão incrivelmente semelhante.

Nas eleições municipais aqui do Rio de Janeiro, já se viam, de longe, as bem-sucedidas operações de boataria, calúnia e, sobretudo, manipulação do tacanho e incompetente horizonte de reflexão política do povo evangélico.

Cito uma experiência pessoal. Em 2008 fui presidente da Associação de Igrejas Batistas na Ilha do Governador, instituição meramente denominacional, que estimula o trabalho conjunto das Igrejas Batistas do bairro. Quem conhece, sabe que a política aqui da Ilha é dominada por uma única família e sustentada por currais eleitorais. Sofremos com vários problemas sociais que nunca são discutidos no âmbito da denominação. Mas naquele ano concorria à prefeitura alguém chamado Fernando Gabeira (PV), personagem controvertido e de fama absolutamente reprovável aos olhos das lideranças evangélicas. Foi então que, no 2º turno, diante do crescimento de Gabeira nas pesquisas, mesmo lutando contra a máquina da aliança Cabral-Lula, recebi uma ligação de uma liderança política daqui. Na ligação, a pessoa que me identificava como presidente da Associação, convocava uma reunião com as lideranças evangélicas do bairro para tratar de um assunto de interesse de todos: A AMEAÇA GABEIRA. Dizia ela: "Ele vai legalizar a maconha, vai legalizar o casamento de homossexuais, vai transformar a cidade em Sodoma e Gomorra...". Em nossa Igreja, ouvi diversas pessoas dizerem que não tinham escolha: não poderiam votar num "homossexual maconheiro".

No 1º turno, Eduardo Paes, apoiado pela Igreja Católica, fora abençoado pelo arcebispo da cidade. Marcelo Crivella, Bispo da Igreja Universal, foi abençoado por Edir Macedo. No 2º turno, Paes ganhou a dupla bênção. E a eleição. O resultado foi impressionante: Eduardo Paes, do PMDB, que no PSDB tinha ofendido Lula e sua família na crise do mensalão, era eleito prefeito com 1.696.195 votos (50,83%), contra 1.640.970 votos (49,17%) de Fernando Gabeira. A abstinência foi recorde: mais de 900 mil eleitores não compareceram às urnas.

O eleitorado evangélico declarou, em peso, rejeição à Gabeira.

Agora, em 2010, o mesmo PV odiado pelos evangélicos do Rio de Janeiro teve como candidata à presidência Marina Silva, evangélica. Assistimos, então, ao fenômeno da conversão: o PV arrebatou mais de 2,5 milhões de votos no estado e Marina se transformou em xodó das igrejas. No cenário nacional, foi notória a participação dos evangélicos e sua responsabilidade na realização de um 2º turno.

Fui pressionado, enquanto pastor, a exibir um vídeo amplamente divulgado pelas igrejas, onde um pastor batista pede abertamente aos membros de sua igreja que não votem no PT, pois esse partido deseja institucionalizar a iniqüidade e assim trazer o juízo de Deus ao Brasil. Parece loucura medieval, mas é verdade. Parece ridículo, mas quase 3 milhões de pessoas assistiram ao vídeo no You Tube e milhares de igrejas o exibiram durante seus cultos. O voto de cabresto ameaçava apenas para essa vida. Não obedecer ao pastor e votar no PT é uma ameaça para toda a eternidade.

Agora, diante do 2º turno, ouvi alguém dizer lá na Igreja: "Se a Dilma ganhar, estamos fritos. Meu neto me mostrou um e-mail que conta detalhes do programa dela. O PT pretende fechar igrejas, legalizar a pedofilia, obrigar as igrejas a aceitarem os homossexuais... E tem mais: o Michel Temer - vice da Dilma - é satanista. A Dilma está doente. Vai morrer. O vice assume e teremos um satanista como presidente do Brasil. Cuidado!"...

É demais!

Por isso o título desta postagem. Que Igreja é essa? Somos rebanho mesmo! Massa de manobra. Incapazes de refletir criticamente. Guiados por ventos, modas, tv, rádio e Internet.


Estou cada vez mais convencido de que essa Igreja que aí está pode ser tudo, menos o que Jesus veio fazer aqui.

Continuem, igrejas. Continuem com seus projetos de mega-templos, CD's, programas de TV, cristandade... Continuem, pastores, com seus grandes salários, carros, conforto, brisa, fama e poder. Continuem. O Inferno é logo ali. Ele, para vocês, existirá com chamas ardentes.

Só peço a Deus que me dê um coração sensível. E olhos. Olhos que percebam Jesus nos famintos, nus, sem-teto e sem-terra, enfermos, presos e marginalizados, escondidos nas manjedouras ou bem presentes no caminho entre Jerusalém e Jericó.

Deus, ajuda-nos! Livra-nos desta igreja...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido...


Dois anos se passaram desde o início da peregrinação.

Em 28 de outubro de 2007, cerca de 45 famílias, de 120 que saíram do Egito, entravam na Terra Prometida. Um antigo prédio do INSS no Centro do Rio de Janeiro, há muito fechado, se transformou na “terra que emana leite e mel”, para mulheres, homens e crianças.

Organizados no Movimento Nacional de Luta por Moradia, tendo como Moisés a guerreira Maria de Lourdes Lopes (Lurdinha), depois de peregrinar no antigo Cine Vitória, e em muitos outros lugares, conseguiram, por fim, ver Faraó cair e entraram “a pés enxutos” na herança de Javé, constituindo-se hoje em mais um grandioso exemplo da força da mobilização popular.

A Ocupação foi batizada de Manuel Congo, em homenagem ao líder da maior rebelião de escravos no Vale do Paraíba do Sul, entendendo que preservar a memória é indispensável na caminhada (Deut. 6). A ocupação completou dois anos cantada na doce voz das crianças, que juntas num lindo coro ensinavam os presentes que “é preciso coragem”.

Um ano de cozinha comum, uma máquina lavar com um tanque por andar até o dia de hoje, banheiros comuns, escalas de limpeza, assembléias quase semanais... Quanto foi preciso aprender... Quanto se tem aprendido... Quanto podem ensinar ao mundo? Sim, outras relações são possíveis! Que transformação é essa, feita sem a força de armas, que une famílias num ideal sublime, que num tempo de notícias ruins, encarna a Boa-Nova?

A Ocupação Manuel Congo mexe com meus sonhos. Ela, de fato, aquece meu coração. Quem ouve sua história, quem conhece seu povo e celebra suas vitórias, vê, sente e experimenta a presença do Deus da Vida.

sábado, 14 de novembro de 2009

Duque de Caxias pertence a Poseidon

Estamos falando da cidade que tem o 15º PIB do Brasil, o 2º do Estado do Rio. Duque de Caxias tem, segundo o Censo 2008, 864.392 habitantes - e R$ 21.000,00 de PIB per capta! Essa deveria ser uma cidade modelo. Mas não é. E as enchentes dessa semana nos ajudaram a ver isso de maneira mais contundente.

Duque de Caxias vive o fenômeno da multiplicação de igrejas evangélicas, com crescimento explosivo do número de convertidos. É comum, em qualquer rua ou avenida da cidade, a presença de inúmeros templos, quase sempre lotados. Mais um motivo, poder-se-ia dizer, para imaginar uma cidade que encarnasse os valores do Evangelho. No entanto, sou forçado a questionar o que se alardeia com tanta pretensão: "Duque de Caxias pertence a Jesus!". Pode até ser, num sentido exclusivamente dogmático, mas as recentes enchentes nos mostram um município com a cara de Poseidon, o deus dos mares e das águas.

É justamente na pretensão evangélica que reside minha indignação. Preciso saber quantos/as pastores/as e líderes de igrejas evangélicas ocupam seus púlpitos neste momento para questionar as autoridades públicas quanto ao quadro cruel e desumano, criado não pela chuva, mas pelo abandono e pela ausência do poder público. Preciso saber quantos/as colegas, nesse momento, choram com suas ovelhas e as orientam na luta por mudanças profundas em sua cidade. Preciso saber porque desconfio que a voz da igreja anuncia a Barra da Tijuca como prêmio para os "fiéis a Jesus", e se contenta em consolar os que por ora "são provados em sua fé". Então, amigos/as pastores/as, o que essas imagens exigem de nós, seguidores/as de Jesus?
Preciso desesperadamente saber se amanhã vozes proféticas denunciarão o descaso do poder público ou vozes loucas reclamarão da parada gay. Preciso saber...

Parece óbvio que existe um grande problema em nossa reflexão teológica. Parece óbvio, também, que dizer às pessoas das fotos acima que um "maravilhoso céu as espera" é absolutamente desnecessário, covarde, alienante e, por que não, demoníaco.

Perdoem-me a indignação e dureza das palavras. Repito-as para mim mesmo todos os dias. Penso que Jesus, entre nós, faria um chicote e nos expulsaria da igreja.

No meio disso tudo, não posso deixar de comentar o que é um claro sinal do Deus da Vida para cada um/a de nós.
Essa é uma imagem messiânica. Vejo, nessa criança resgatada da enchente, o Menino Jesus... Ou quem sabe Moisés. É dela que minha Bíblia fala. É isso que meu Deus me fala.

Procuro, na multidão, pedir ao Senhor que me ajude a identificar o Cristo (Mateus 25)... Mas também o Herodes, o faraó...

Para o Natal que se avizinha, já montei meu presépio!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

I Encontro "Igreja & Transformação Social" - Ilha do Governador/RJ

Veja no BLOG do ISER/Assessoria
Veja no BLOG do "Fé e Cidadania" de Niterói

Já era hora de movimentar esse blog. No meio de tantas idas e vindas, estive um tempo "fora do ar". Isso mesmo. É tempo de caminhar sobre a terra e transformar idéias em atos. Essa foi a proposta do I Encontro "Igreja & Transformação Social" da Ilha do Governador, realizado nos dias 3 e 4 de outubro, na Igreja Batista em Jardim Duas Praias, nossa casa.

Ao longo de uma tarde (03) e manhã (04), batistas e católicos discutiram a importância da reflexão política a partir da vivência e da prática da fé cristã. Descobrimos que, querendo ou não, são decisões políticas as que mais diretamente influenciam nossas vidas. É uma exigência da fé cristã que, de mãos dadas, participemos dos destinos de nossa nação, agindo sempre em defesa dos pobres e oprimidos, uma vez que essa foi a opção de Jesus, como nos narram os evangelistas.

No primeiro dia, o professor Tobias Faria, assessor da Rede "Fé e Política" do estado do Rio de Janeiro, caminhou conosco nos mostrando como a Bíblia é clara em defender um projeto de vida para todos e todas, em contraposição ao sistema de morte, dominante em nossa realidade. Refletimos sobre a necessidade de, como igreja, sermos defensores e propagadores desta mensagem de vida em abundância, tão ausente nos rostos ao nosso redor. Como foi bom descobrir que damos 1/3 do nosso trabalho nas mãos de nossos representantes, os mandatários, e por isso precisamos acompanhá-los, fiscalizá-los e exigir que cumpram seu papel na construção de uma sociedade justa, fraterna e humana. Ao fim deste dia, discutimos iniciativas concretas que podem se tornar factíveis em nossa realidade local. Como comunidade batista, foi realmente libertador saber que temos irmãos e irmãs de fé, caminhada e luta na igreja católica.

No domingo, o professor Fábio Py, biblista, trabalhou conosco um texto dos Atos, auxiliando-nos a identificar, no cristianismo nascente, a opção radical por uma vida de igualdade e partilha, sem a qual o movimento cristão teria perecido.

Foi apenas um passo na longa caminhada. Mas demos esse passo juntos, quebrando barreiras, abrindo-nos ao novo, convivendo com as diferenças e, sobretudo, descobrindo um Jesus tremendamente humano e comprometido com a Vida, nossa vida e vida dos que estão ao nosso redor.

É bom poder entrar na roda... Então vem, entre nela com a gente!



terça-feira, 8 de setembro de 2009

Culto do "EU"

por Pe. Alfredo J. Gonçalves * /Adital

No individualismo exacerbado da sociedade moderna ou pós-moderna, o culto ao "eu" ganha uma relevância sem precedentes. Semelhante culto se expressa de variadas formas: a primeira e mais visível é a busca obsessiva do corpo perfeito protagonizada especialmente pelas meninas vinculadas ao mundo da moda, com seus desfiles, passarelas, luzes e glamour. A tirania da beleza lhes impõe um regime de verdadeira tortura, além de difundir uma espécie de remorso nas pessoas "normais". Mas o culto ao "eu" também está presente no assédio impudico às celebridades, ou grandes personalidades. De alguma forma, tanto as câmaras e holofotes da mídia quanto o público em geral, projetam nessas figuras o sucesso que sonham para si mesmos, embora continuem rastejando pelo mundo dos simples mortais. De fato as estrelas, embora ofusquem os planetas, conferem-lhe algum brilho. Mesmo girando em órbitas distintas os astros se atraem na infinitude do universo. Daí o afã dos "paparazzi" pela invasão de privacidade a todo custo.

O hedonismo, entendido como o prazer pelo prazer, é outra marca do culto ao "eu". Se confrontarmos os anos de 1950, 60 e 70, com os dias atuais, podemos ter uma idéia do que isso significa. De fato, em décadas passadas, predominava na cultura geral a preocupação com o "bem estar social". Basta reportarmo-nos a figuras como John Lennon ou The Beatles, a Nelson Mandela, Dom Oscar Romero e Hélder Câmara, às canções da Bossa Nova ou da MPB, à manifestações juvenis dos anos 60 em Paris e México, por exemplo, às ações das Igrejas no processo de libertação latinomericano, aos movimentos sociais, universitários e estudantis, à educação Paulo Freire e Ligas Camponesas, enfim, ao desenvolvimento dos debates em torno do socialismo e suas ações concretas. Em tudo isso, o foco das atenções estava centrado numa perspectiva claramente sócio-política.

Atualmente o foco do"bem estar social" foi substituído pelo foco do "bem estar pessoal". "Estar numa boa" é uma das expressões dessa virada histórica. O verbo ficar ao invés de namorar também não deixa de ser uma metáfora dessa mudança cultural mais abrangente. As relações tendem a ser mais efêmeras, descartáveis, sem responsabilidades duradouras. A própria dança, em lugar de revelar um casal apaixonado, aparece muito mais como um exibicionismo contorcionista de um parceiro frente ao outro. Mas isso não se dá somente entre os jovens e adolescentes, como se costuma insinuar. Na sociedade como um todo, é frequente o isolamento individual diante da multidão de estranhos.

Desde um ponto de vista religioso e católico, uma rápida olhada para os hinos tocados nas missas ou celebrações segue a mesma direção. Em não poucos casos, o "nós" de décadas passadas dá lugar ao "eu": ao invés do "Povo de Deus", eu e Jesus, eu e Deus, e assim por diante. A Teologia da Libertação, as CEBs e as Pastorais Sociais sofrem um processo de encolhimento, ao mesmo tempo que florescem os movimentos religiosos de caráter espiritual e intimista. Também a fé tende a privatizar-se, tornando-se uma opção individual com pouca ou nenhuma repercussão social.

O resultado é que o conceito de transformação social ou política está desacreditado. Mudança virou sinônimo de espetáculo, não de processo lento e laborioso. Funcionam melhor os analgésicos da vida moderna. Não se pensam em projetos de longo prazo, mas em remédios imediatos para problemas imediatos. O importante é responder aos males do "aqui e agora". Daí o sucesso da varinha mágica de Harry Porter, da força de Rambo, da sorte lotérica, das lições de auto-ajuda, dos milagrismos, entre tantos outros paliativos.

Facilmente se esquece que as mudanças, a exemplo da espiga, da flor, da árvore e do edifício, levantam-se do chão. A exemplo das sementes, maturam na terra escura e úmida, antes de se projetarem no céu e no ar livre. Criam raízes antes de verem a luz do sol, crescem para baixo antes de cresceram para cima. O mesmo se dá com os sonhos e utopias. Se não partirem do contexto histórico, com o complexo de seus problemas econômicos, políticos e sociais, jamais poderão elevar-se a um horizonte alternativo. Sem raízes, a árvore é manipulada pelos ventos e os projetos sociais pelas tempestades variantes da política.

* Assessor das Pastorais Sociais.

sábado, 4 de julho de 2009

Multiplicando o rebanho...


Car@s amig@s que lêem este Blog... O que aqui será dito não pretende revolucionar a reflexão sobre o estado de coisas em que vivemos. "Não há nada novo debaixo do céu"...

Contudo, "não posso deixar de falar do que tenho visto e ouvido".

Existem inúmeros MCA's (Master of Church Administration) disponíveis no mercado religioso, e um deles resolveu me convidar para um curso. Não só a mim, mas a todos, no masculino mesmo, que são meus colegas de trabalho. "Todos no masculino mesmo" porque o convite partiu de uma fraternidade de pastores, ligada à denominação a que pertenço, que é capaz de, em pleno presente século, fazer distinção entre homens e mulheres na Igreja.

Pois é. Essa fraternidade envia uma carta aos pastores machos para convidá-los a participar de um retiro, onde outros pastores machos compartilhariam os segredos da multiplicação de seus rebanhos. Exatamente. Nossos colegas pastores estão utilizando tecnologias reprodutivas em suas igrejas (novidade). Assim, nada melhor do que dividir com outros criadores o milagre da multiplicação, garantindo um mercado consumidor de seus "gametas abençoados". Pensem nas vantagens das técnicas reprodutivas: "evita os custos e os riscos da manutenção de touros na propriedade, assim como os gastos periódicos de aquisição de novos reprodutores; permite o uso de material genético de melhor qualidade e até importado; possibilita a realização de acasalamentos direcionados e a escolha do melhor reprodutor para cada fêmea; elimina o risco de transmissão de doenças (...); permite o melhor controle da reprodução e agrega valor ao rebanho (http://www.asbia.org.br/?empresa/noticias_ler,61). Ou seja: tudo o que nós, pastores, precisamos.

Permitam-me reproduzir, com algumas alterações nos nomes dos palestrantes, a carta-convite: "... estarão falando os pastores: Pr. Dr. Peter Drucker, homem que revolucionou a administração do North Seminary; Pr. Jack Welch, que dirije a PIB de algum lugar que vive um crescimento maravilhoso. Somente até maio sua igreja realizou 125 batismos. Hoje a igreja conta com 3.000 membros, sendo que há cerca de 10 anos contava apenas com 300 membros; Pr. Bill Gates, da igreja de Miami, que tem forte e abençoada estrutura...".

Estamos ou não falando de rebanhos?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Reminiscências...

Lembro-me muito de minha infância... Guri que nasceu no Rio e cresceu em Valença, no interior do estado. Lá aprendi a ler, a escrever e, quem sabe, a pensar...

Lembro-me de que, não sei em que série, havia um livro de português que falava em desenvolvimento do senso crítico... Foi no Instituto de Educação Dep. Luiz Pinto. Grande escola. Há textos daquele livro que ainda estão vivos em minha memória... Um deles é essa belíssima poesia:

O operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

(Vinicius de Moraes)


Mas as letras que me vieram a mente na semana passada são de um poema que eu sempre lia quando visitava o posto de saúde na Rua Vito Pentagna. Ficava na porta de um dos consultórios. Esperando para ser atendido, por diversas vezes reparei naquelas letras. Estava escrito em espanhol e a única frase que eu entendia era: "Pero y ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo". Resolvi jogar a frase no Google e descobri:


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais.

Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes e menos lentilhas, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vida pela frente.

Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…

(José Luís Borges)


Tais lembranças me trouxeram um vendaval de emoções... Penso no passado, penso no presente, tento prever o futuro... Não sei o que me reserva a vida. Não quero chegar aos 85 com a sensação de que faria tudo diferente... Entretanto, às vezes tenho a sensação de que cheguei aos 26 exatamente assim... Quer dizer, quase exatamente. Há muito da minha história que não mudaria. Ou mudaria? Se mudasse, o que mudaria? Para o que mudaria?

Mas não posso mudar! Esse é o fato. Tenho que me contentar. Tento apenas ser um operário em construção. Tento apenas aprender a dizer não. Tento apenas dar meus pequenos passos, nesse grande chão!